terça-feira, junho 2
Pode
sexta-feira, maio 15
Bar
quinta-feira, abril 30
Sprint
quinta-feira, abril 16
quarta-feira, abril 1
Fanta
Logicamente, estava tonto de sono e cansaço. Sair em viagem de madrugada nunca, nunca! foi uma boa idéia, mas como não era nem para eu estar ali, melhor não tomar parte em reivindicações:
- Às quatro?.. Hum... Eu ACHO que num tem problema não...
- Tá, então a gente sai quatro e meia, pra você não chiar...
- (Úuuuuuuh..... como você é bondoso!...) Nossa, tá ótimo! Estarei às quatro e meia na porta da sua casa.
O carro popular sem climatizador permitia que a nossa visão ficasse embaçada permanentemente, e como nos bons velhos tempos, limpávamos o pára-brisa com uma flanela freneticamente, de três em três minutos. A noite estava ainda mais escura com as nuvens de chuva, por isso da direção cautelosa. Fazia força para me manter acordado, e conversávamos de octanagem dos combustíveis. Com os olhos, seguia a lanterna traseira do caminhão que andava a mais ou menos
Distraído, acompanhei os pontos vermelhos dançar para a esquerda e desenhar no ar abstratamente novamente para a direita:
O fato é que ele já estava chegando
Mas talvez ele batesse na mulher e abusasse da filha pré-adolescente. Estava virando a noite no volante porque, como sempre, perdera muito tempo tomando pinga na beira da estrada. Provavelmente estava embriagado, e não viu o outro caminhão invadir a sua faixa. Não escolheu ser caminhoneiro, teve que sair de sua cidade, pela polícia e inimizades.
Mas não tenho certeza do quê poderia justificar a perda da vida.
O sol não estava mais a vista, mas o dia era claro. O céu bonito, parece que típico desta região. Tomava quase todo o céu um laranja claro, cor de Fanta em camiseta branca. Treze horas depois de iniciar a viagem, finalmente olhava novamente para paisagem familiar. O carro ainda engolia o final da estrada, mas eu não estava cansado de pensar. Pensava no valor que não damos à nossa vida. Tão pouco valor, que temos raiva quando chega um email de auto-ajuda para nos lembrar que a gente precisa dar valor à vida. Eu, por exemplo, tenho ódio, e apago antes de abrir.
Dura o mesmo tanto, na verdade. Um segundo para deletar uma mensagem com trilha sonora de Pachabel e textos duvidosos de Carlos Drummond, um segundo para morrer. Justiça seja dita, o motorista do caminhão, mesmo são, não teria tempo para desviar do choque. A freada brusca em chão molhado até a cessão dos virabrequins durou uma batida de coração. Sem tempo para arrependimentos, sem tempo para despedidas, nem para uma última tragada no cigarro. Ciao. Simples assim.
Tenho tempo de menos. Quero fazer coisas que me fazem bem. Quero estar com quem me quer bem. Não quero gastar este tempo com pessoas e coisas que me cansam, e sim, que me treinam na corrida da vida. Pois treinar é bem diferente de cansar em uma esteira. Deletei do meu celular os números, deixei só os meus contatos. No sentido estrito e primário da palavra, não significando networking. Números só são importantes no Orkut, Facebook, Wayn, Estou Aqui, Cá Estou.com, etc. E ainda assim, estou restringindo. Quero o melhor para mim, e para quem me quer. E faço o possível para não cansar essas pessoas.
Maldito acidente. Me fez emotivo e cansativo. Pode deletar.
quarta-feira, março 11
Dedo Opositor
- ...
- Eu te falei, você não acreditou, né? Eu não sou bobo, não! Sei das coisas!
- Ô moço. Mas podia ser umas raposas, elas vêm aqui para comer as bananas no pé mesmo...
- Mas não ia fazer aquele barulho esquisito, aquele ronco.
- Bom, isso é verdade.
- E o cheiro?...
-Ah, é. O cheiro dá pra saber...
***
- Tá vendo ali?
- Ali onde?
- Ali, ó. Na bifurcação da estrada, lá na frente. Ali...
- Tô vendo.
- Então, foi ali que eu vi...
- Mas ALI?
- Pois é, mas já era noite, passava menos carro.
- Não acredito nisso... tão perto da gente...
***
- Eu reconheci o cheiro na hora que senti. Pois então? Saí da casa pra fumar, era umas duas horas da manhã. De repente eu ouvi umas pancadas secas no chão, umas pisadas fortes. E uma respiração seguido de uns roncos bem esquisitos, grumf, grumf. A mata começou a mexer, aí fui correndo pra dentro de casa.
- Aaah! Então você está adivinhando, né?
- Não tem jeito de ser outra coisa, aquele cheiro de carniça!
***
- Lá na casa 1, lá em cima, tinha um cachorrão preto. Sempre ficava lá, a gente colocava comida pra ele. Ih, tava aqui com a gente fazia um tempo já! Um dia a noite eu tava aqui fora limpando as panelas, e vi ele passar para lá, pra aquela direção ali, pro mato. Depois desse dia, nunca mais ninguém viu ele.
***
- Você sentiu o cheiro daqui?
- Claro! Cara, não tem jeito. Aquele cheiro de carniça forte, nossa... quase fiz vômito.
- Eu acho que era de medo, e não do cheiro.
- Engraçadinho. Queria ver você naquela hora... Gente, por quê que a escuridão tá mexendo?
- Cadê?
- Ali no canto... ali!
- CACETA!.. Olha o tamanho da aranha!!!
- Meu Deus! É uma caranguêja...
- Tá vindo pra cá tá vindo pra cá!..
- Me dá a vassoura! Rápido!
...
- Eca, mas que merda você fez no chão hein? Precisava?..
- VAI que ela não morre e sobe pela vassoura e me mata?
- Meu Deus, que drama.
- Você tá vendo o tamanho dessa aranha? Ela cobre a sua cara fácil se tiver aberta.
- É... pensando por este lado, ficou um pouco aterrorizante.
- Aterrorizante foi ouvir a onça zanzando por aqui perto da casa. Vai que ela cisma de entrar na casa?
- Ah, é verdade. Eu esqueci que onças têm mãos e dedo opositor para segurar a porta e empurrar para os lados.
- Assistiu a “Ilha das Flores” também, né, sabichão?
- Mais de uma vez.
- Adoro o filme também, mas não tem nada a ver com a onça.
- Eu sei, só quis aparecer...
***
- Perto, perto.
- E o quê você fez?
- Ué, fiz nada. Tava no carro indo pra lá, a onça lá parada olhando pra mim. Mas quando cheguei perto, ela se assustou com o barulho, e foi pro outro lado. Virei pro meu lado e fui embora!
- Tão perto da gente...
***
- Gatinho!... oi gatinho... cadê você? Vem comer um peixinho, vem!
quinta-feira, fevereiro 19
O Terceiro Elemento
- Eu NÃO ACREDITO que vou passar os próximos meses neste lugar!
Ao som do Léo e do Vítor, os dois sapos pareciam dançar, pois pulavam para lá e para cá no chão
Ele pediu um fósforo, e a mocinha – gentilmente – tomou o cigarro da mão dele, e foi andando em direção ao isqueiro pendurado no balcão, o barbante encardido. Se no primeiro segundo fui paralisado por descrença, eu já gargalhava enquanto ela voltava com o cigarro aceso na mão, soprando o restinho de sua tragada. Ele se envergonhou por ela.
Eram quase 21:00, e o céu estava salpicado de estrelas. Nos últimos dias, eu já estava ao relento há algumas horas. Os dias mais longos e o calor nos convidavam para o lado de fora, e até o anoitecer, ficávamos conversando borracha, jantando e tomando café, rindo um do outro. O caseiro e sua esposa nos contavam causos simples, e ainda assim, engraçados. Apagávamos a luz da varanda de vez em quando, e as estrelas pareciam cair alguns metros, pois pareciam crescer e brilhar com maior presteza.
Um dia cheguei em casa, e reparei que o caseiro estava um pouco abatido. Antes de eu sentar, ele me estendeu uma bandeja de umbu, docíssimo. Contou que a vaca pariu na noite anterior, mas que a bezerrinha tinha enganchado. Não agüentou, a pobrezinha, mas não levou a mãe junto, Deus é bom. Chupamos umbu e choramos a morte da bezerra. A tristeza não durou muito, pois ele apontou para o horizonte. A lua cheia ascendia incandescente, vermelha. Corri em direção à noite para melhorar a minha visão, ele sentou no chão para rir.
- Eu não acredito que vou passar os próximos meses neste lugar...
Mas talvez o rural tenha perdido o seu charme levemente, quando, num desses momentos crepusculares, vi sair uma cobra coral debaixo da cadeira em que eu estava sentado. O pânico não chegou a incorporar, mas devo confessar que fiquei mais receoso de andar por aí depois deste episódio. O pior é que a conversa evoluiu para jararacas, cascavéis e caranguejeiras, todos habitantes das redondezas. No dia seguinte, chegava da portaria a pé, marmita na mão, tudo escuro já. Confundi a sombra da raiz de uma árvore com uma sucuri, mesmo as dimensões da raiz sendo completamente incompatíveis com a maior de todas as sucuris. Gritei por dentro, e corri silenciosamente. Quase larguei a janta no chão. Ofegava quando cheguei em casa, e o caseiro:
- Ôxi, moço. Tá fujino di quê?
- De nada, ué. Aproveitando para fazer um exercício.
Um terceiro sapo entra no salão do restaurante. O antes Vítor & Léo, como resolvi chamá-los, agora era o Trio Parada Dura. Pagamos a (cara) conta, e tomamos o caminho para casa. Parecíamos não sair do lugar, pois a rodovia era reta e sem mudanças. Nem outros veículos. Ao chegar, desci do carro, e olhei para os lados. Só via vento. Balançava os coqueiros, as bananeiras, o canavial. Olhei para cima, e as estrelas. A paz. Acreditando ou não, eu ficaria. Sorri, e fui dormir.
quarta-feira, fevereiro 11
Abre Tus Ojos
Tomamos consciência de que o futuro e o passado se encontram no presente no momento em que partimos. Para ir a algum lugar, para voltar para casa, para ir aos mesmos lugares. Lembramos e buscamos para termos uma baliza para o quê está por vir. E eu estava assim, sem palavras, só pensando.
Na verdade, os preparativos não aconteceram da forma esperada. Muita gente estava indecisa, quem tinha que pagar não havia pagado, outras desistiram, e eu quase. No final das contas, resolvi ir, pois seria esta uma oportunidade de pleno descanso antes de seguir para mais longe, e o ônibus seguiu ao seu destino com apenas 5 pessoas.
Passada a decepção (com as pessoas), estávamos todos ansiosos para chegar. No caminho, lembranças de outras visitas nos fizeram companhia nas curvas e retas escuras, e nos ninaram num sono tranqüilo e otimista. Sono este interrompido já no píer onde embarcaríamos.
Juntamo-nos com dois suecos e um casalzinho em plena lua-doce, e seguimos. E no meio do trajeto, a bióloga resolve nos dar uma pequena palestra.
Ironia, ironia. Enquanto boiando em plena imensidão azul do Atlântico, no meio de onde as águas se estendiam em todas as direções até onde as vistas chegavam, eu fixei meu olhar em um azul mais claro, como água-marinha. E conheci uma das mais interessantes pessoas ao vivo que tive contato. Mestre em Biologia, professora da rede pública Bahiana em virtualmente todas as matérias e todas as séries (devido à escassez de profissionais), ex-surfista profissional, ex-esposa, ex-R.P., quase não estava ali, pois a família precisava que ajudasse nas finanças de casa. E passou sim, por dificuldades. Ainda assim, estava ali a falar sobre budiões, golfinhos e corais como falamos mal dos outros. Nas horas vagas, faz trabalho social, pois diz sentir fazer diferença.
Um anjo. Fisicamente e coraçãomente falando. Um anjo encapetado, devo acrescentar, pois se diverte e ri que nem criança sapeca, ama o que faz como se não ganhasse para isso. Enquanto terminava a sua aula, consegui desviar o olhar, e ver um tapete verde esmeralda nos dar as boas vindas ao arquipélago.
Pero Vaz de Caminha havia aconselhado à Curôa Purtuguesa para abrir bem os olhos quando chegassem a este pequeno pedaço de terra no meio do mar, e como não? Abrolhos é a certeza da existência de Deus, seja lá quem ou o quê Ele seja. Se na superfície, a sua beleza inspira, debaixo d’água ela instiga. Homem não faz isso, nem se tentasse. Se tentasse, haveria McDonald’s e Blockbuster no lugar, e se fossem belo-horizontinos, drogaria Araújo e quiosques de temaki.
Abrolhos foi o primeiro “território” elevado a parque nacional marinho, pelo decreto no. 88.218 de 6 de Abril de 1983. Permanece quase intacta, com exceção dos postos de vigia do Ibama e da Marinha, este último que, pasmem, não tem envergadura para cuidar da parte MARINHA do parque, apenas na parte da defesa (em caso de guerra). Já que é assim, eu dei a sugestão de chamar o Exército para cuidar dos peixes, não sei se eles acataram as minhas palavras com satisfação. Há também o farol, que daria por si só uma extensa descrição muito interessante do seu funcionamento e de sua história. Mas além de ser provável assunto para a posterioridade, eu não prestei muita atenção no sargento. O pôr-do-sol estava logo ali, seduzindo todos os meus sentidos.
Numa dessas noites, talvez pelo embalo do mar, talvez pela caipirinha, eu e os suecos nos perguntamos o quê havia acontecido com a nossa energia infantil que não apenas nos impulsionava para o desconhecido, como nos fazia achar graça e gosto em todas as situações. Talvez pelo mar, talvez pela caipirinha, respondi que se levarmos Lavoisier em consideração, essa energia havia se transformado em experiências e conhecimento. O nórdico concordou, e acrescentou: “A gente está gastando quase toda a energia que nos fazia ir no pensar e avaliar, e acaba por não fazer”. Olhei para fora, a lua cheia distorcida pelas marolas. Maldita caipirinha.
Agora o mar era escuro. Um azul profundo, contrastante ao céu, que pendurava alguns nimbos ameaçadores. O sol incendiava o horizonte com um laranja quase inolhável, mas ainda assim trazia tranqüilidade para quem o encarava. O continente começava a despontar no horizonte. E o perfume salgado do mar vinha se despedir. E eu estava assim, sem palavras, só pensando.
terça-feira, janeiro 27
Doppio
No meio do caos, olhei para o alto e vi peônias coloridas, o fundo negro. Havia tantos sons acontecendo ao mesmo tempo que eu conseguia ouvir apenas o silêncio. Como o catavento colorido que gira rapidamente, e no final se vê apenas o branco. Branco este que dominava a praia, pois todos queríamos paz. Branco eram também as flores que Iemanjá ganhava, mas em troca de amor, fortuna, maridos e mulheres. Branco da espuma das ondas que pulávamos com um pé só. Será que as menorzinhas valiam como ondas? Na dúvida, vamos esperar por uma maior. E das sete, as ondas viravam dez, doze.
De repente, a magia acaba. O funk e a gritaria voltam à minha audição, cheiro de cerveja se mistura com o de água do mar com espumante, e a minha bexiga cheia. Não considero outra opção, e vou caminhando para um lugar mais fundo. Ainda um pouco envergonhado do ato que ainda não fiz, começo a ver algumas pessoas fazendo o mesmo, só que sem pudores, ali em pé, à brisa do mar. Olho para o lado, e mais gente à procura do alívio imediato. Neste momento me pergunto como que eu estava ainda dentro daquela água. E quando resolvo estender o meu olhar por toda a baía, vejo milhares e milhares e milhares de pessoas marcando o seu território. Não importava o sexo, crença, idade, time de futebol. Alguns em pé, algumas agachadas, e outros mais no fundo, como eu. Engraçado isso. Momentos antes, oferecem flores a Iemanjá. Minutos depois, baixam as calças e dão o recado: "... e ISSO é para se você não atender os meus pedidos, porra!".
Depois do que presenciei, eu só tenho uma coisa a dizer: calotas polares, cuidem-se.
***
Se for verdade o que dizem, que a cada despedida, as pessoas levam um pouco de nós, então sou um vazio ambulante. Já passei por tantas, que já posso me dar ao luxo de fingir que não ligo mais. Na minha família, nunca fomos muito emotivos com essas coisas. Porque se estávamos partindo, o motivo estava muito além dos momentos de convivência familiar, e os laços, estes tínhamos (e temos) certeza que nunca serão desfeitas. Meus pais nunca falaram coisas do tipo: "Ah, não vai embora não! Para quê ter um Pós-doutorado em Neurofísica? Não serve para nada! (ainda bem que não foi falado, senão teria que concordar com eles)". Pelo contrário. Eles sempre nos deram força para seguir adiante, buscar por novos horizontes, essas coisas de poesia. E se nós tivéssemos nos limitado pelo medo do novo, nós não teríamos a Samsonite cheia de pacotinhos* valiosos.
Engraçado mesmo é ver a percepção e a reação das outras pessoas em relação ao partir. Já vi famílias inteiras no aeroporto, com balões, apitos, bandas de fanfarra e faixas com os dizeres: "Fulano de tal, nós te amamos!", "Volte logo, você mora no nosso coração!!", "Quer casar comigo?", e assim por diante. Se não me engano, todas as ex-namoradas do cara estavam lá também. Isso tudo porque o rapaz estava indo para a Disney... Tá bom, tá bom... mentira. Ele ia ficar um ano estudando fora. Mas tenho reais dúvidas se estas coisas realmente são válidas ou não.
A partida nunca deixará de doer, isto é fato. Penduramos um sorriso na cara para disfarçar a falta que já faz a comida de casa, as caipirinhas e as cocas que tomaríamos juntos, conversas madrugada adentro, tardes de domingo em silêncio com a família. Doutorado uma ova! Trabalho coisa nenhuma!!.. Eu quero é ficar aqui na vida boa, com minha família e amigos curtindo a zona de conforto!.. Mas... no final do dia, tomamos a decisão de partir, certa ou errada seja. Se já foi difícil optar por ir, eu me pergunto: exatamente COMO que a micareta no aeroporto estaria facilitando as coisas?
Porque a última vez que fiz uma viagem semelhante, minha mãe me levou até o centro, e peguei um Airport Service, porque era mais prático, mais barato, e ela tinha que dar aula e meu pai estava atendendo no consultório.
Peraí... Eu acho...
...
Será que eu sou adotado?
*Pacotinhos: vide Támas I & Támas II
P.S. Tardei, mas não falhei. Sabem como é... férias escolares, festividades de final de ano, trocas de presentes, muitas coisas acontecendo ao mesmo.. Feliz Ano do Búfalo a todos!
segunda-feira, dezembro 22
Beautiful (da série "Reflexões de Natal")
quarta-feira, dezembro 3
Keynes
Já pararam para pensar que as compras essenciais sempre ficam no lugar mais distante da entrada principal de um supermercado? Na época, o Carrefour tinha apenas uma entrada, e desta perspectiva, os pães e as carnes ficavam do lado oposto da entrada. Feijão, arroz, óleo e sal, ficavam no final do supermercado. Antes de chegar à sua cesta básica, você tinha que passar pelas meias, cuecas, camisetas, brinquedos, bicicletas, iogurtes e congelados (FHC ainda não era presidente, então ainda eram artigos de luxo), enlatados, desodorantes e shampoos, chocotales e balas, e aí sim, vitaminas e proteínas para todo mundo crescer forte. Os mais preguiçosos talvez ficassem obesos para sempre. Não apenas isso, as gôndolas eram, e ainda são dispostas de maneira tal que os produtos à mão são os de preço mais elevado. Para pechinchar, os consumidores tinham que se abaixar, ou pegar no alto. Pelo porte, eu sempre abaixava, logicamente.
E ela passou para os shoppings centers. Quanta gente, quanta alegria! É muito difícil de se ver luz natural dentro de um shopping. Por outro lado, o templo todo é intensamente iluminado por uma luz que imita o dia. Desta forma, não se preocupa com o tempo passar, nem se percebe se está chovendo ou não, e se alguém deixou a roupa no varal, já era. As escadas rolantes são estrategicamente posicionados distantes umas das outras. Assim, sempre é preciso passar por uma loja a qual produto apetece. E se alguém se rende e entra na loja, geralmente irá se deparar com uma boa conversa. Se não é boa conversa, é bonita ou gostosa. Falando em gostosa, as praças de alimentação. Quanta coisa gostosa!.. É possível dar uma volta ao mundo em cinco minutos, e escolher em que país comer: Itália, China, Japão, Líbano, Pirapora (eu SEI que não é um país!), vai depender do seu apetite. Para os mais nojentinhos, os Estados Unidos. Tudo muito bem iluminado e climatizado.
Até os banheiros. Pois então. O estacionamento do shopping custa R$ 3,60. O Mocha Ice Blend no California Coffee é R$ 6,90. Revista Auto Esporte custa R$ 9,90. Agora... Refletir sobre a Filosofia do Consumo num trono com ar condicionado e ao som de músicas natalinas não tem preço. O ambiente todo é pensado, meu Deus! "Oh christmas treeeeeee, oh christmas treeeee, of all the trees most lovely!", e eu ali, reinando absoluto, bolava novas teorias Keynesianas.
Vulgar? Imagina! Se eu tivesse pulado a parte dos lavatórios, todos iam achar as teorias lindas. Pois agora elas são lindas e reais. Em tempos noélicos, vale pensar um pouco até que ponto somos o quê o meio quer que sejamos e até onde podemos ser nós mesmos. Vale viver a simbologia da data, mas por que dar presentes só no Natal? Até onde os termos religiosos regem a data e são importantes para a mesma? Jesus Cristo existiu mesmo? Não, essa última é brincadeira... (então, é nataaaaaal... by Simone).
Para constar: 1) Eu terminei o café ANTES de entrar, e; 2) Caso a reflexão seja uma opção, ambientes azulejados NÃO são mandatórios.
terça-feira, novembro 11
C
Do shopping center até o meu primeiro destino dava mais ou menos uns dois quilômetros, sendo otimista. O horário estava contado, mas já havia feito isso diversas vezes. Com o passo um pouco mais acelerado, chegaria a tempo sem problema algum. E assim decidi fazer. Tanto tempo sem fazer exercício, né? Seria uma boa oportunidade para acelerar um pouco a circulação.
Ipod no ouvido, o trance a 135 bpm ditava o ritmo dos meus passos. Tum, tum, tum tum... Postura ereta, ombro para trás, presta atenção no movimento dos braços, e o meu tempo foi ótimo! Corpo quente, coração acelerado e o suor começava a brotar da testa. Pausa para o primeiro compromisso, e quase conseguia sentir a endorfina correr pela veia. Meia hora depois, já sentia o corpo um pouco mais frio, mas tinha mais dois compromissos pela frente. Quer saber? Já cheguei até aqui mesmo, vamos seguir a diante... Sem gasolina, sem diesel, sem álcool.
Alguns minutos mais no ambiente refrigerado, e seguia para o meu encontro. Ela queria almoçar na Savassi, e num calor de quase quarenta graus, nos rendemos ao coletivo. Mais uma horinha sentado, conversa vai, comida indiana vem, e a satisfação é geral. Como ela estava com pressa para voltar ao trabalho, opta por um taxi. Por que eu não escolheria fechar a hipotenusa? Tentei, mas algo estava errado comigo.
Tibial anterior e extensor longo do Hálux se encontravam paralisados. Era como se tivesse injetado ácido sulfúrico na área subcutânea. A essa altura, os poucos passos que arriscava me saíram como C-3PO. Eu estava plantado no meio da calçada, as pessoas passavam por mim distraídas pelos seus afazeres vespertinos, não faziam idéia do meu sofrimento. E a verdade me veio como um roundhouse kick no queixo: eu não sei andar.
Congelado no fervilhão urbano, tentei refletir sobre a minha existência, e o quê tinha feito ou deixado de fazer para merecer aquilo. E só consegui chegar a uma conclusão: tinha finalmente chegado à idade do “C”. Sedentário, senil, sentado, serestas (trance uma pinóia!) e cereais, porque nem o intestino funciona direito. O natal chegando, e eu ainda tinha que gastar dinheiro com uma cadeira de rodas para mim. Talvez aproveitasse a oportunidade para comprar um cobertor quadriculado e um gato para ficarem no meu colo, enquanto observo a rua da janela da minha casa fria com cheiro esquisito.
Enquanto me arrastava em direção à primeira alma caridosa que pararia para me acudir, tentava não mais pensar no futuro que me aguardava. Entrei no taxi gemendo dores, e balbuciei alguma coisa próxima do local onde estava meu carro. Meu olhar estava parado no pára-sol. “Que calor, né?”, e eu “Mmm...”. Será que quem tem Unimed paga menos em aparelhos ortopédicos? Eu acho que o cobertor pode ser aqueles que tem em ônibus Cometa, meio cinza com traços azul e vermelho, parece que está em desconto no Varejão das Fábricas... Dou uma passada lá amanhã (de carro). Pensando bem, eu acho que o cheiro esquisito da casa de pessoas idosas vem dessas coisas. Será que a Trousseau tem cobertores quadriculados? Vou ter que parcelar... “São oito e setenta”.
“A corrida deu oito e setenta”, ele repetiu. Perguntei se poderia pagar tudo em moeda, porque a moça da Caixa tinha me pagado os quebrados tudo em pratinhas. Supimpa.